quarta-feira, 26 de março de 2014

OLINDA SEU CARNAVAL VERDADEIRO E O DOS VÂNDALOS

Clóvis Cavalcanti
Economista ecológico e pesquisador social
clovis.cavalcanti@yahoo.com.br

Publicação: 16/03/2014 03:00

É geral a condenação ao vandalismo que tem surgido em meio a manifestações pacíficas da população brasileira desde junho passado, e em jogos de futebol no estado e outras partes do Brasil. As cenas a ele relacionadas, divulgadas pela televisão, jornais e a Internet, causam estupor e sensação de caos. Agressões, destruição de patrimônio, atos violentos, de fato, criam um rastro de assustadora deterioração social. Em parte, pode-se até entender o que acontece, sobretudo pela péssima qualidade da educação e formação cívica no país. Mas entristece perceber como uma situação de caos vai tomando corpo. Pois bem, isso se dá com destruição física escancarada. Vidraças quebradas, carros queimados, pessoas feridas e até assassinadas ficam como registro desse vandalismo, documentado na hora. Sua expressão é palpável.

Sensação parecida experimentaram os olindenses que têm raízes na cidade, cujo carnaval sempre foi motivo de enorme alegria, em face de comportamentos lamentáveis de invasores que trouxeram destruição à festa deste ano. Ora, Olinda se caracteriza – tal como o Recife antes que o desastrado prefeito Augusto Lucena (imposto em 1964) destruísse o bairro de São José – por uma folia democrática, popular, de mescla humana na rua (que é do povo). Os invasores de 2014, que já vêm tomando fôlego há algum tempo, inventaram um carnaval de casas-camarote totalmente alheio à tradição, aos valores, à identidade olindense. Especialmente, porque seu motivo é o lucro monetário, uma coisa que não está presente na história das agremiações que dão a Olinda sua beleza de dança, música e alegria na rua. Para ganhar dinheiro, os promotores de casas-camarote criam guetos, cercados, currais. A eles pessoas são levadas em vans exclusivas. Ou em carros com passes de livre trânsito, conseguidos sabe Deus como. Privilégio abominável. Nos guetos veem shows que destoam completamente dos ritmos da cidade. E a música medíocre (lixo) que produzem se espalha para além das fronteiras dos espaços em questão. Uma agressão a quem gostaria de estar curtindo frevo, o som da cidade.

Ora, o que se pratica desse modo é puro vandalismo. O frevo, como se sabe, é, por ato da Unesco de 2012, “Patrimônio Imaterial da Humanidade”. No instante em que, no carnaval, que é a hora mais apropriada do frevo, se faz algo que contribui para matá-lo, o que ocorre é vandalismo do naipe do de hooligans e black blocs. Não estou exagerando. Durante o carnaval que passou, todas – insisto: todas – as pessoas de Olinda com quem conversei (e eu passo o carnaval na rua dançando, cantando e confraternizando; não em guetos) estavam revoltadas com as casas-camarote e os gestores municipais que as aprovam. A mesma sensação foi a de um grupo qualificado de 14 pessoas de Minas Gerais, hospedadas na Casa de Olinda, de que sou vizinho. Elas estavam enojadas com a folia invasora de empresários malditos que querem ganhar dinheiro acabando com aquilo que lhes permite vender o carnaval de Olinda: seu frevo, sua autenticidade, diversidade de cores, singularidade. Que mercadores insensíveis vandalizem o frevo até se pode entender. Mas que os gestores municipais acobertem e aceitem isso é razão para que não se fique perplexo quando black blocs pró-Olinda tradicional despertarem.

PASSO DO CARNAVAL
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