quarta-feira, 19 de março de 2014

VIDEO MOSTRA CENAS FORTES DE CLAUDIA SENDO ARRASTADA

Cláudia Silva Ferreira foi atingida por bala perdida no Morro da Congonha, em Madureira, no Rio (Foto: Mariucha Machado/G1)
O marido da auxiliar de serviços Cláudia da Silva Ferreira, que morreu após ser atingida por uma bala perdida no Morro da Congonha, em Madureira, no Subúrbio do Rio, afirmou ao G1 nesta segunda-feira (17) que a mulher foi tratada como "bicho". A declaração foi dada durante o velório no Cemitério de Irajá, também no Subúrbio. Alexandre Fernandes da Silva contou que só soube que a mulher havia sido arrastada no caminho para o hospital quando chegou na UTI.

 corporação.

Cláudia foi baleada no domingo (16) durante uma operação policial. Testemunhas contaram que ela foi colocada no porta-malas do carro da polícia para ser levada ao hospital. No entanto, durante o trajeto, o porta-malas abriu e a auxiliar de serviços caiu, sendo arrastada pela rua por cerca de 250 metros.
"Trataram ela como um bicho. Nem o pior traficante do mundo deveria ser tratado assim. Quando cheguei no hospital, eles falaram que ela tinha ido para a UTI, mas ela já estava morta. Ela leva um tiro no peito e é arrastada no chão. Como vai sobreviver? Temos quatro filhos, uma de 18 anos, um de 16 e um casal de gêmeos que fará 10 anos no próximo domingo. Meu filho não quer ver a mãe no caixão, mas ele tem que ver. Eu estou preparando eles. É a mãe deles, eu não posso esconder isso", afirmou o marido de Claudia.
  Silva acredita que a mulher não teria morrido se não tivesse sido arrastada. "Se não tivessem arrastado ela, ela poderia estar viva", afirmou o viúvo, acrescentando que os policiais militares não preservaram a cena do crime.
Cláudia tinha 38 anos, era mãe de quatro filhos e criava quatro sobrinhos. O corpo da auxiliar de serviços gerais foi enterrado por volta das 13h.

PMs afastados
Os três policiais militares que socorreram Cláudia no Morro da Congonha foram afastados. Por volta de 11h desta segunda-feira, os três PMs prestavam depoimento na 2ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar da Corregedoria interna da corporação.
  "Lamentamos muito a forma como a senhora Cláudia foi socorrida, é uma forma que nós não toleramos. A corporação não compactua com isso. Por essa razão, eles estão sendo autuados e serão conduzidos à unidade prisional", afirmou o relações-públicas da PM, tenente-coronel Cláudio Costa, em entrevista à GloboNews. "O ideal era que ela fosse no banco de trás amparada por um policial. O que não aconteceu", acrescentou Costa, referindo-se à forma como a vítima foi socorrida.
O jornal Extra publicou nesta segunda (17) o vídeo feito por um cinegrafista amador que mostra a mulher sendo arrastada por cerca de 250 metros. Cláudia teria ficado pendurada no para-choque do veículo apenas por um pedaço de roupa.
Vítima temia pelos filhos
O filho de 16 anos de Cláudia contou ao G1 durante o velório que a mãe temia que os filhos fossem atingidos em confronto na comunidade ou fossem confundidos com traficantes da região. O adolescente afirmou  que há constantes trocas de tiros no morro.
"Ela tinha medo das ações da polícia na comunidade. Todo os dias, eles [ PMs] chegam atirando e depois vão ver quem é. Ela não deixava a gente ficar na rua com medo de acontecer alguma coisa ou de confundirem a gente com traficantes", disse.
Moradores do Morro da Congonha encontraram cápsulas de balas na comunidade (Foto: Mariucha Machado/G1) O irmão de Cláudia disse que a auxiliar de serviços foi colocada com vida no carro da PM. "Eles [PMs] fizeram isso com ela. A gente não sabe como vai ficar a nossa vida agora. São oito crianças. Quem vai cuidar deles agora? O pai não pode parar de trabalhar. Como vai ser a nossa vida agora?", questionou.
Moradores do Morro da Congonha encontraram
cápsulas de balas na comunidade
(Foto: Sabrina Gonçalves/Arquivo Pessoal)
Resposta da PM

Em nota, a PM disse que Cláudia da Silva Ferreira foi colocada no porta-malas do carro e no caminho do hospital a porta se abriu. Foi nesse momento que parte do corpo da moradora acabou sendo arrastado pela rua, provocando mais ferimentos. O comando da PM afirmou que este tipo de conduta não condiz com um dos principais valores da corporação que é a preservação da vida e da dignidade humana.
A Polícia Militar informou ainda que os policiais encontraram Cláudia já baleada no alto do morro. Ela ainda foi levada para o Hospital Estadual Carlos Chagas, mas não resistiu.
Segundo a PM, na operação em Madureira, um traficante foi morto e outro foi ferido e preso. Os policiais apreenderam quatro pistolas, rádios e drogas na comunidade. A Polícia Civil vai investigar de onde partiram os tiros.
Para a família, a dor se mistura à indignação. “A sensação é que no morro, na favela, só mora bandido, marginal. Inseguança, somos tratados como animais”, diz um amigo de Cláudia.
Ônibus foram queimados durante a noite de domingo (16) em protesto de moradores do Morro da Congonha (Foto:  Wallace Luiz/VC no G1)Ônibus foram queimados durante a noite de domingo (16) em protesto de moradores do Morro da Congonha (Foto: Wallace Luiz/VC no G1)

tópicos: