quinta-feira, 17 de abril de 2014

"ALÔ, NORDESTE", MATARAM A NOSSA RÁDIO CLUBE!

  Atenção, esta notícia deveria sair nas páginas policiais: “Morte anunciada. Acabam de matar a Rádio Clube de Pernambuco, a PRA 8!”
Choram as ondas do rádio.
A gula insaciável pelo poder, pelo dinheiro e pela manutenção do monopólio da comunicação brasileira, que alimenta o clã Marinho, decretou o dia 3 de fevereiro de 2014 como o dia da morte da Rádio Clube de Pernambuco, a primeira emissora de Rádio do Brasil e da América Latina. Um assassinato da cultura, da história do rádio, por cabeças inescrupulo$as.
A partir desta data, quem sintonizar a frequência AM de 720 KHz não vai mais ouvir as vinhetas da Clube e sim da globalizada Rádio Globo, uma emissora que impõe uma programação pasteurizada país afora. A Globo vai na contramão do rádio, que tende a revalorizar as programações locais, regionais, com a cara de cada região e não essa coisa insossa de programação em rede que tentaram difundir mundo afora a partir da globalização neoliberal made in Tio Sam. Com finalidade de acabar com as culturas e identidades locais.
A saída do ar da Rádio Clube de Pernambuco, a PRA 8, é um crime.
Que mudasse de mão, mas continuasse Rádio Clube de Pernambuco.
Uma emissora de rádio antes de ser uma propriedade de empresários gulosos e espertos é uma concessão pública que deveria ter como principal finalidade o serviço público ao seu ouvinte, com objetivos educativos, sociais e de defesa dos direitos humanos. E cultura local é direitos humanos.
Certas estão a Argentina e a Venezuela, que criaram suas leis para controlar as empresas de comunicação de seus países, que, como no Brasil ainda hoje, eram manipuladas e pautadas pelos EUA.
E isto feito na Argentina e Venezuela nunca foi, e nem será, censura.
Sou jornalista provinciano, mas nunca me prostituí, nunca vendi a minha pena, os meus princípios, e defendo esse controle da mídia.
Censura é o que fazem esses donos da comunicação no Brasil, com seus monopólios, que sempre conseguiram eleger quem queriam, até antes da chegada da internet.
Em Pernambuco, teve colunista que se demitiu de um grande jornal da capital por não se submeter às ordens do patrão, tido como democrata, que proibia qualquer crítica a um então governador que hoje não passa de um político morto, apesar de estar com mandato na mão. Isto é que é censura e acontece também na telinha da Globo e jornalões diariamente.
Até agora, não ouvi um único parlamentar pernambucano protestar contra o enterro precoce da Rádio Clube de Pernambuco, o que é lamentável.
É verdade que a emissora vem de longo processo de decadência, com dirigentes e comandos incompetentes, ou mal intencionados. Muita gente se fez às custas da Rádio Clube. “Gente de bem”, de paletó e gravata, os chamados “empreendedores”. Enquanto a rádio foi indo ao fundo do poço.
Mas nada justifica a morte anunciada da emissora da Rua do Veiga.
Por que nós, brasileiros, e pernambucanos em particular, negamos a nossa memória, cultural e histórica?
Parece que temos vergonha de guardar para sempre o que foi construído no passado, amparados numa falsa e burra modernidade, que não passa de falta de cultura característica de uma elite econômica e política deseducada. Burra. Ou colonizada, propositadamente treinada para não preservar as nossas raízes, a nossa identidade, sob o preconceituoso, e excludente discurso de uma tal meritocracia.
A mais recente vítima dessa falta de memória chama-se Rádio Clube de Pernambuco, a PRA 8, o “Canhão do Nordeste”, que com os seus 100 Kw de potência varreu o Nordeste, e o Brasil e o mundo – através das suas ondas curtas – até algumas décadas atrás, com um rádio de sotaque genuinamente pernambucano, nordestino, como a alma de nossa gente.
A Rádio Clube de Pernambuco foi escola do rádio brasileiro. Mestres da comunicação, como Chico Anysio, por exemplo, iniciaram seu sucesso profissional nos seus microfones, aqui em Pernambuco. O título desta despedida-denúncia é uma marca que faz história, o programa “Alô, Nordeste!”, comandado por Elias Lourenço, que liderou durante muitas décadas a audiência das madrugadas nordestinas e que foi afastado anos atrás porque um idiota de Brasília que veio (des)comandar a emissora o considerou velho e ultrapassado. Hoje, Elias Lourenço continua fazendo sucesso nas madrugadas pela Rádio Folha FM e do incompetente que o demitiu não se sabe nem o nome. Deve ser um desses tais “empreendedores” espertos e falantes que pululam por aí. Imagino a saudade e tristeza de Geraldo Leal, Elias Lourenço, Aldemar Paiva e tantos outros que vivenciaram por dentro a história da Rádio Clube.
É de fazer chorar.
Um pouco da história
Há 95 anos no ar, a Rádio Clube de Pernambuco, a PRA 8, foi a primeira emissora de rádio do país e da América Latina, fundada em 6 de abril de 1919 por um grupo de amigos amadores liderados por Augusto Joaquim Pereira, com edital de criação publicado pelo Diário de Pernambuco. As primeiras instalações situavam-se no Parque 13 de Maio, passando em 1923, com a entrada de Oscar Moreira Pinto, a funcionar na Avenida Cruz Cabugá, com um pequeno equipamento de 10 watts que possibilitava a irradiação das suas ondas no centro da cidade e em alguns bairros do Recife. Esta façanha colocou Pernambuco no pioneirismo da radiodifusão no Brasil.
A Rádio Clube de Pernambuco também deu o pontapé inicial no radialismo esportivo, realizando a primeira transmissão ao vivo no Norte-Nordeste, com a narração de um jogo feita pelo locutor Abílio de Castro, em 1931. A partir daí a emissora passou a liderar o jornalismo esportivo no rádio com a melhor aparelhagem técnica e maior potência de transmissão. Já nas décadas de 1960 e 1970, com equipe especializada, manteve liderança absoluta nas transmissões esportivas do Nordeste. Em 1936 sua potência já era de 50 Kw chegando tempos depois aos 100 Kw que a tornaram o “Canhão do Nordeste”, marca usada até os dias atuais. Ainda nesses anos a Clube já contava com um grande quadro de locutores, jornalistas, artistas e produtores que era responsável por uma programação popular que incluía radionovelas e programas de auditório. Até uma maravilhosa orquestra a emissora passou a ter com a contratação do genial Maestro Nélson Ferreira, que encantava Pernambuco e o Brasil.
Outro marco da Rádio Clube de Pernambuco foi o “Repórter Esso”, surgido no país em 1941 e que um ano depois passou a ser transmitido pela nossa PRA 8 com os ouvintes ao pé do rádio para se informarem sobre tudo o que acontecia na Segunda Guerra Mundial. A partir de 1952 a Rádio Clube de Pernambuco passou para as mãos dos Diários Associados, empresa fundada pelo jornalista e empresário Assis Chateaubriand, responsável pela instalação da televisão no Brasil numa época em que se achava desnecessária essa inauguração da TV no país.
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Ruy Sarinho é jornalista, cidadão pernambucano e ouvinte da Rádio Clube