quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

MOVIMENTO OCUPE ESTELITA GANHA FÕLEGO NO RECIFE E JÁ É VISTO COMO NOVO MANGUE BEAT





RIO — Uma empreiteira compra um terreno público à beira-mar de uma capital brasileira e decide construir ali edifícios de luxo. Moradores da região reagem à especulação imobiliária, fazem manifestações e são repelidos com força policial. O problema não é uma novidade no país. O que se segue é que é bastante incomum: artistas e intelectuais compram a briga e se envolvem a ponto de compor canções, fazer shows, filmes, artes visuais, liberar direitos autorais, destinar cachê e renda de seus produtos em prol da causa.

                     É o que está acontecendo no Recife, no que ficou conhecido como Movimento Ocupe Estelita (MOE). Ativistas e moradores da capital pernambucana, contrários à implantação do projeto “Novo Recife” no Cais José Estelita — uma área de quatro quilômetros à beira-mar que corre o risco de se transformar num condomínio com doze torres residenciais de 40 andares — fizeram uma série de protestos e “ocupões” culturais desde meados do ano, ganhando o apoio da classe artística nacional e de intelectuais estrangeiros, num movimento que ganhou fôlego nas últimas semanas e já vem sendo chamado por muitos de “novo mangue beat”.

— Acho que o movimento também veio muito de uma visão livre e artística própria da cidade, pontos de vista já expressos nas artes, e o cinema, claro, é um ingrediente forte dessa mistura. Acima de tudo, o movimento é fruto de uma mistura de muita gente, nem todos artistas, que conseguem enxergar possibilidades de um Recife melhor e mais livre — opina o cineasta Kleber Mendonça Filho (diretor de “O som ao redor”), que participou do documentário “Recife, cidade roubada”, um dos principais produtos audiovisuais do movimento.




                  Lançado na internet na última semana, o filme tem como apresentador o ator Irandhir Santos (“Tatuagem”, “Tropa de elite 2”, “Febre do rato”) e explica o histórico de especulação imobiliária na capital. O documentário é um dos dez vídeos que já foram produzidos pelo coletivo formado por Ernesto de Carvalho, Leon Sampaio, Luis Henrique Leal, Marcelo Pedroso e Pedro Severien, integrantes da cena audiovisual pernambucana. A equipe também assina o videoclipe da música “Sangue no cais”, composição inédita do rapper Criolo para o movimento. Criolo esteve no Cais Estelita em julho, onde fez um show gratuito para os manifestantes e moradores do entorno. Não só ele: Otto, Karina Buhr, Lirinha, Marcelo Jeneci, JuveNil Silva e China também já cantaram por lá ou já destinaram a renda dos ingressos de seus shows para o movimento.

— Era o mínimo que eu podia fazer. Já não vivo no Recife há 4 anos, mas é a minha cidade e quero voltar para lá — diz o ex-apresentador da MTV e músico China, que lançou ontem seu novo álbum, “Telemática”, cuja música de trabalho é uma homenagem ao movimento, com um videoclipe todo de imagens feitas pelos manifestantes. — É um movimento sem lideranças, apolítico, totalmente espontâneo. A ocupação é pacífica e muito produtiva. Quando estive lá vi que as favelas do entorno aderiram em massa, e a programação cultural dos “ocupões” abraça todo mundo. Acho que tudo isso despertou um interesse geral em brigar pela cidade que queremos. Desde o mangue beat não vejo nada parecido.


                 Além de cineastas e músicos, escritores e intelectuais também se juntaram ao Ocupe Estelita. Na semana passada, o historiador e escritor americano Benjamin Moser, mais conhecido no Brasil como o “biógrafo de Clarice Lispector” publicou o ensaio inédito “Cemitério da esperança”, que tem toda a renda destinada ao grupo (foram cerca de 200 vendidos em uma semana, cada um custa R$ 3). Finalista do Prêmio Jabuti deste ano na categoria romance, Marcelino Freire foi um dos escritores que liberaram os direitos autorais de um de seus contos, originalmente publicado no livro “Angu de sangue” (2000), para integrar a coletânea “Inquebrável: Estelita para cima”, cuja venda vai para a causa (ao custo de R$ 15 cada, já foram vendidos 400 exemplares). Editado pelo escritor pernambucano Wellington de Mello e lançado pela editora artesanal Mariposa Cartonera, o livro reúne 46 contos já publicados na literatura brasileira sobre especulação imobiliária. No time, além de Freire, estão também Raimundo Carrero, Ronaldo Correia de Brito, Joca Terron e Antonio Prata.

— Quando o Wellington me procurou eu já conhecia o movimento, mas ainda não havia estado lá. Fiquei encantado, e participar era o mínimo que eu poderia fazer nesta frente de batalha — comenta Freire, lembrando que enfrenta o mesmo problema no bairro em que vive, Vila Madalena, em São Paulo: — Moro na mesma rua do Teatro Escola Brincante, dirigido pelo músico Antonio Nóbrega, ameaçado de ser derrubado desde que uma construtora comprou o terreno para fazer um edifício de luxo. O teatro de rua Núcleo Bartolomeu, aqui em São Paulo, também foi despejado na semana passada pelo mesmo motivo. Toda hora a gente vê a cultura perder para a especulação imobiliária. É hora de reverter esse quadro. Este é um debate crucial do nosso tempo.

                Editor da revista literária digital “Cesárea”, que publicou o ensaio de Benjamin Moser, Schneider Carpeggiani conta que já ouviu muita gente chamando o Ocupe Estelita de “novo mangue beat”, movimento cultural importante no Recife nos anos 1990 cujo ícone era o músico Chico Science, do grupo Nação Zumbi. Assim como China, ele compara:

— Quando o mangue beat explodiu, o discurso das músicas era erguido em relação à cidade, ao difícil estado de se morar no Recife. O urbano era o fetiche de várias das letras. E o sucesso desse movimento de fato acabou mudando a cidade, trazendo um lastro de empolgação pelo menos até o começo da década passada. O Ocupe Estelita retoma esse discurso pela cidade, mas sem o fascínio pela metrópole de antes e agora olhando o direito do cidadão no espaço público. Vinte anos depois, como a gente gosta de dizer “it is mangue, bitch”.

LINGUAGEM VISUAL INCLUI LOGO OFICIAL

                O MOE também tem uma linguagem visual própria, criada voluntariamente por cerca de 100 designers e artistas gráficos. São cartazes, bandeiras, xilogravuras, grafites, colagens e memes jogados na rede diariamente. A logomarca oficial do movimento — um ícone que faz referência direta ao símbolo de localização do Google Maps — já foi parar em bottons, bolsas e camisetas cuja renda foi levada para a causa.

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    Que não para de crescer. Os últimos “ocupões culturais” têm números de festival: no que aconteceu no domingo, 16 de novembro, foram cinco palcos com 15 shows de bandas locais, além de atividades paralelas, como oficinas de instrumentos, grafite, projeção de filmes, exposição de fotos, programação infantil (chamados de “ocupinhos”), além de um seminário de urbanismo dado pelo geógrafo inglês David Harvey, que também esteve no Occupy Wall Street, em Nova York, em 2011. O próximo “ocupão” está marcado para janeiro, promete ter um line-up ainda maior.

                  A pressão popular tem funcionado: existem cinco ações civis públicas na Justiça contra ilegalidades do projeto imobiliário, e o consórcio Novo Recife apresentou o projeto redesenhado à prefeitura da cidade na semana passada, que está sob análise. As alterações, no entanto, não satisfazem os manifestantes, que já estão estudando outras ações para um novo plano urbanístico para o Cais.

— A turma está querendo brigar contra essa privatização dos espaços públicos, que faz deles uma espécie de playground para playboy. Mas a gente lá no Recife briga muito — diz o músico JuveNil Silva, que se apresenta no Rio neste fim de semana e já fez três shows no Cais Estelita durante as ocupações.



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