Primeiro trem urbano da América Latina – um dos muitos pioneirismos de Pernambuco –, a maxambomba recifense surgiu em 1867, quatro anos antes dos bondinhos de burros da Companhia Ferro-Carril. Consistia numa locomotiva (cuja cabine não era coberta, o maquinista e o foguista ficando expostos ao sol e à chuva) e em vagões, de um ou dois andares, que variavam de número, de três - que era o usual - até, nos dias de eventos mais importantes, a 17 carros.
Expandindo-se gradativamente, as maxambombas chegariam a cobrir, com seus trilhos, aproximadamente vinte quilômetros da capital pernambucana. Seu ponto de partida era na Rua do Sol, bem próximo ao Teatro de Santa Isabel. Dali seguiam pela ponte de madeira, que tinha um trajeto sinuoso e acabava ao lado da Igrejinha dos Ingleses (local onde hoje está o Cine São Luiz). Seria demolida na década de 40, embora, por conta de avarias causadas por uma alvarenga, já estivesse há tempos sem ser utilizada pelos pedestres. A propósito, a Ponte Duarte Coelho, inaugurada em 1943, seria construída no mesmo local, com a diferença de não apresentar a sinuosidade da outra. Após a Rua Formosa (atual Conde da Boa Vista), os trenzinhos ganhavam o então chamado Caminho Novo da Boa Vista e se dirigiam para a Praça do Entroncamento, local onde a ferrovia se trifurcava, originando a linha de Dois Irmãos (Linha Principal), a da Várzea e a do Arraial.
A Linha Principal, diferentemente das outras duas, funcionava de maneira impecável, com vagões asseados e bem conservados, e obedecendo rigorosamente aos horários preestabelecidos. Era por essa linha que viajavam os ingleses do Recife que, atraídos pelo verde das árvores, pelas frutas, pelo canto dos passarinhos, pelo clima e, também, pelos saudáveis banhos no Capibaribe, optavam por morar nas lonjuras da Jaqueira, Ponte d"Uchôa, Sant"Ana, Casa Forte, Chacon, Poço, Caldeireiro, Monteiro, Porta d"Água, Apipucos e Dois Irmãos.
Os elétricos da Pernambuco Tramways, inaugurados a partir de 13 de maio de 1914, viriam, de imediato, substituir os bondinhos de burros da antiga Ferro Carril. As maxambombas seriam gradativamente suprimidas.
Delas parece-me restar apenas uma única lembrança: a bucólica estação de Ponte d"Uchôa, bem em frente ao Colégio Damas, que, com sua arquitetura simples, seus lambrequins, seus românticos banquinhos de madeira e seu diminuto jardim, ainda encanta o recifense.
Aos que, como eu, por ali passam diariamente, causa pena e uma profunda tristeza o seu estado de conservação. A estação, verdadeiro cartão-postal do nosso Recife de antigamente, está em completo abandono, necessitando urgentemente de reparos e pintura. Seus lambrequins, apodrecidos, estão despregando da cobertura, ameaçando, inclusive, cair na cabeça de algum incauto que por ali passe.
Esse, porém, não é um fato isolado. É apenas um dos inúmeros exemplos que poderíamos citar para mostrar o abandono em que se encontra a capital pernambucana, já há alguns anos. Nossos administradores parecem não enxergar a degradação que o Recife - uma cidade bela como poucas neste imenso Brasil – vem sofrendo nos últimos anos: ruas inteiras (a 7 de Setembro é uma) ocupadas por um comércio desordenado, esgotos a céu aberto, fedentina insuportável, terrível poluição visual e sonora, calçadas (como a da Rua do Imperador) servindo de moradia para mendigos - a fazer suas necessidades em plena rua –, casebres de papelão (na própria Dantas Barreto) sendo erguidos aleatoriamente, ocupando os passeios e obrigando o pedestre a caminhar pela rua. Sem falar da buraqueira das ruas em geral, verdadeiras crateras, a dificultar ainda mais o já caótico trânsito da cidade.
Saudades do meu Recife.
» Rostand Paraíso, médico, é da Academia Pernambucana de Letras

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