04/02/2013 06h30
- Atualizado em
04/02/2013 06h30
Dois brasileiros viajaram para a África na semana passada com a missão
de construir uma escola na comunidade de Fendell, nas imediações de
Monróvia, capital da Libéria.
O terceiro integrante da equipe vai no mês de março. A obra vai
substituir a unidade erguida em 2009 com paredes de ripas de bambu
trançado e teto de folhas de zinco, sem energia elétrica e banheiros,
que atende cerca de 300 crianças em condições precárias. O projeto prevê
a construção de uma nova escola que também vai aproveitar o bambu,
matéria-prima abundante no local, além de alvenaria, e terá, ainda,
soluções sustentáveis para captar água e luz. A previsão é concluir a
obra em até seis meses, antes do início do mês de julho quando a região
sofre com a temporada das chuvas.
O jornalista Vinicius Zanotti, de 27 anos, coordenador do projeto, foi o
primeiro a chegar na Libéria, ele viajou na última terça-feira (29). O
construtor Fabio Ivamoto Peetsaa, de 34 anos, foi em seguida na
quarta-feira (30), e por último, o arquiteto e urbanista André Dal'Bó da
Costa, de 28 anos, completa a equipe com embarque no dia 4 de março.
Para viabilizar a construção, Zanotti iniciou uma campanha em setembro
de 2011 que arrecadou R$ 140 mil em dinheiro, com a venda de produtos
com a marca ‘Escola de Bambu’ como camisetas, DVDs, palestras, além de
rifas e doações espontâneas. Cerca de 30 voluntários estão envolvidos na
atividade, os chamados ‘bambuzeiros’. O que norteia a campanha é um
vídeo documentário de 15 minutos produzido por Zanotti. O trabalho foi
premiado em quatro festivais e está disponível no YouTube.
O vídeo traz depoimentos de estudantes, professores e pais dos alunos
da comunidade. Mark Luogon é um dos alunos entrevistados. "Nossos pais
não têm dinheiro para nos mandar estudar em Monróvia. Então nós amamos
esta escola comunitária porque fica perto da gente."
O professor Victor Mckay também aparece no documentário. "Quando eu
trabalhava em outra escola recebia US$ 310 por mês [na ocasião, seu
salário era US$ 10, hoje são US$ 20]. Era um bom dinheiro, estava muito,
muito satisfeito. O problema não é encontrar outro trabalho, mas como
ficarão nossas crianças amanhã? Como vão crescer aptos a construir a
nação? Então este é o motivo de eu continuar aqui. Ajudá-los a crescer
em uma boa sociedade", afirma, no vídeo.
Segundo Mckay, os pais das crianças não podem pagar nem 5 dólares
liberianos (o equivalente a US$ 0,07) para comprar cadernos. "Eles vêm
sem cadernos. A escola também precisa de livros, não temos livros. Não
tem material para os professores. Precisamos de ajuda."
Após encontro há dois anos, Zanotti e Sabato se
tornaram amigos (Foto: João Zinclar/ Divulgação)
tornaram amigos (Foto: João Zinclar/ Divulgação)
A ideia
A empreitada foi iniciada em março de 2010 quando Zanotti viajou para a Libéria e realizou o sonho que tinha desde adolescente de conhecer a África. A temporada que duraria 15 dias foi prolongada por dois meses porque ele contraiu malária e precisou de cuidados médicos. Neste período, o jornalista conheceu o líder liberiano Sabato Neufville, de 35 anos, fundador de uma ONG chamada "Movimento dos Jovens Unidos contra a Violência."
A empreitada foi iniciada em março de 2010 quando Zanotti viajou para a Libéria e realizou o sonho que tinha desde adolescente de conhecer a África. A temporada que duraria 15 dias foi prolongada por dois meses porque ele contraiu malária e precisou de cuidados médicos. Neste período, o jornalista conheceu o líder liberiano Sabato Neufville, de 35 anos, fundador de uma ONG chamada "Movimento dos Jovens Unidos contra a Violência."
Foi Sabato quem ergueu a escola de bambu em setembro de 2009 e com o
próprio salário contratou os professores. Com a remuneração de US$ 800
mensais que recebe da Organização das Nações Unidas (ONU), também
sustenta as nove crianças órfãs de guerra que adotou. “Sabato fazia o
papel do estado. Na Libéria não existe educação gratuita, até as escolas
públicas são pagas. Quando entrei na escola pela primeira vez e vi as
crianças sentadinhas tendo aula naquele espaço, surgiu o estalo de fazer
algo”, diz Zanotti.
Interessado e sempre envolvido em causas sociais, o jornalista se
sensibilizou com a situação da escola e com o trabalho de Sabato e
decidiu gravar o documentário para embasar a campanha de arrecadação de
fundos e dar melhores condições e perspectiva de vida à comunidade.
Durante a gravação do documentário, antes de voltar o Brasil, o jovem
ainda enfrentou febre tifoide.
Crianças da comunidade de Fendell assistem
apresentação de dança (Foto: Vinicius Zanotti/
Divulgação)
apresentação de dança (Foto: Vinicius Zanotti/
Divulgação)
“O que me fez participar do projeto foi o entendimento de que a África é
um continente historicamente explorado, que teve sua população
escravizada e suas riquezas saqueadas, durante processos perversos, como
por exemplo, a recente guerra civil na Libéria”, afirma o arquiteto
Dal'Bó.
‘Vamos ficar doentes ’
Zanotti diz que o grupo ainda não tem o dinheiro ideal para o projeto. Segundo ele, seriam necessários pelo menos mais R$ 70 mil reais para fechar o orçamento. As informações sobre as contribuições estão no site da Escola de Bambu.
Zanotti diz que o grupo ainda não tem o dinheiro ideal para o projeto. Segundo ele, seriam necessários pelo menos mais R$ 70 mil reais para fechar o orçamento. As informações sobre as contribuições estão no site da Escola de Bambu.
Para economizar e fazer o dinheiro cobrir os gastos, o trio vai passar a
temporada na África em uma casa sem energia elétrica, banheiro e água
encanada. Segundo Zanotti, um aluguel com este tipo de “conforto” custa,
em média, US$ 2 mil por mês, investimento inviável para a equipe.
“O valor que arrecadamos é bom, o material de construção na Libéria é
mais barato, mas ainda não é a verba adequada. Eu vou preparado, sabendo
o que vou encontrar, apesar de achar que as condições não são as mais
apropriadas. Provavelmente vamos ficar doentes em algum momento da
viagem, é meio inevitável. Mas os médicos de lá vão estar preparados”,
diz Zanotti, para o desespero de seus pais que também são jornalistas.
"Sou filho único e sempre tive incentivo dos meus pais, mas eles estão
bem preocupados. Minha mãe suspira o tempo todo e já me comprou uma
sacola de remédios."
Vinicius Zanotti com uma criança liberiana (Foto:
João Zinclair/Divulgação)
João Zinclair/Divulgação)
Soluções sustentáveis
O projeto da escola é inspirado em obras já existentes na Índia e no México. Além do bambu, os construtores vão utilizar blocos de tijolo adobe, fabricado com cimento e terra locais. Como o local não possui energia elétrica, água encanada e coleta de esgoto, o projeto prevê soluções sustentáveis.
O projeto da escola é inspirado em obras já existentes na Índia e no México. Além do bambu, os construtores vão utilizar blocos de tijolo adobe, fabricado com cimento e terra locais. Como o local não possui energia elétrica, água encanada e coleta de esgoto, o projeto prevê soluções sustentáveis.
As paredes terão entrada de luz solar para iluminação das salas de aula
e para ventilação natural e haverá sistema de captação e reuso de água
da chuva. Serão criados uma fossa biogestora que transforma excrementos
em adubo para as plantações e um gerador de energia feito com imãs de HD
de computadores quebrados e rodas de bicicletas, projetados pelo
construtor Peetsaa.
Portal G1
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