Quando o responsável por este blog tinha 17 anos de idade, foi morar no Recife para fazer cursinho. Passou no vestibular de Farmácia, na UFPE e a faculdade ficava na distante Cidade Universitária. Todos os dias precisava pegar um ônibus na Avenida Conde da Boa Vista, no centro, para se deslocar até o local dos estudos.
Isso aí foi 38 anos atrás. Mas o repórter lembra como hoje, porém, que a viagem era um horror. Os ônibus super lotados, num calor insuportável. Normalmente todo o percurso era feito em pé, no ônibus, e quando chegava à faculdade estava cansado como se tivesse trabalhado durante horas.
Somente quando o jovem estudante trocou o curso de farmácia pelo de jornalismo, na Universidade Católica, no centro do Recife, é que se livrou do tormento de pegar ônibus todo dia na capital.
Passados quase 40 anos desta situação narrada acima, o que mudou no transporte publico das grandes cidades brasileiras? No Recife, em Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo... Será que melhorou alguma coisa?
Pelo que a gente está vendo no país hoje, deve ter piorado, porque esses protestos que se espalham pelas grandes cidades não é por conta de um aumento de 20 centavos na passagem e sim contra o massacre, a humilhação que é andar de ônibus nas metrópoles brasileiras.
Essas empresas de transporte coletivo, em cidades médias e grandes, têm lucros exorbitantes. Ganhavam tanto dinheiro que na época das eleições elegem vereadores, prefeitos, deputados estaduais e federais. Por isso terminam sendo intocáveis ou altamente privilegiadas.
Se tivéssemos governos sérios e empresários menos gananciosos acredito que se poderia oferecer um serviço de transporte urbano mais decente para os que moram nas grandes cidades. O que se vê, no entanto, são pessoas sendo carregadas como animais, num total desrespeito à dignidade do homem e da mulher.
Então, quando estoura uma reação dessas, de revolta contra o sistema, querem criminalizar os movimentos.
A polícia brasileira, preparada só para reprimir, investe contra jovens e usuários dos ônibus como se estivesse enfrentando criminosos. A ação da PM paulista, durante esta semana, foi tão abusiva que chamou a atenção até dos órgãos e da imprensa internacional.
Os jornalistas, aliás, também foram vítimas da fúria da polícia, Segundo denuncia a Folha só na capital paulista 15 profissionais de imprensa foram agredidos na quinta-feira, inclusive repórteres e fotógrafos do Estadão, da própria Folha de São Paulo e do Portal G1, das Organizações Globo. (Ver abaixo matéria da Folha de São Paulo).
Talvez por isso e por conta dos ataques que a TV Globo recebeu durante toda a sexta-feira, pelas redes sociais da internet, no Jornal Nacional de ontem à noite a emissora da família Marinho mudou o direcionamento do seu principal noticiário. Se antes focava principalmente os atos de vandalismo e criminalizava os protestos, nesta sexta-feira enfatizou a violência policial e mostrou muitas imagens de PMs atacando jovens, jornalistas e até casais sem nenhum envolvimento nos conflitos.
Interessante foi ver o governador Geraldo Alckmin, mesmo depois das imagens da televisão mostrando para todo o Brasil a truculência da polícia paulista, dar uma entrevista defendendo a ação da PM. Segundo o governante tucano, a Polícia Militar agiu corretamente, cumpriu o seu papel. Chegou a dizer que os abusos iriam ser investigados, mas se admite abusos como é que “agiu corretamente”?
As manifestações ocorridas esta semana em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Sorocaba, Santos, Maceió, Natal, Vitória, Uberlândia, Manaus, João Pessoa e Recife lembram os movimentos contra a ditadura, nos anos 70 e 80.
Lembraram principalmente a efervescência de 1984, quando explodiu o movimento Diretas Já, que levou à eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral e ao fim da ditadura.
Os brasileiros das classes média baixa, média média e média alta, que desejam mais do que um bolsa família em suas vidas, não estão satisfeitos. Tem muita coisa aí dando nos nervos dos pais de família e seus filhos.
Tudo isso a meu ver está sendo canalizado nesses protestos. Os governantes, do PSDB em São Paulo, do PMDB no Rio e do PT na área federal, devem estar atentos ao que está acontecendo no país para não ser pegos de surpresa na eleição do ano que vem.
Caso não haja um rumo de correção e as insatisfações continuarem, o povo vai às urnas, em 2014, para dizer não. E não é à toa que Marina Silva, numa pesquisa feita em Brasília, já está próxima da presidenta Dilma nos índices de intenção de voto.
O povo não é bobo e não aceita que tenhamos estádios de futebol de primeiro mundo e saúde, educação, habitação e transporte público de quinta categoria.
Os governos petistas tiraram muitas pessoas da miséria, é verdade. Mas é preciso avançar em outros setores. Como diz sabiamente a canção popular: “O povo não quer só comida”.
(As fotos foram publicadas originalmente nos sites da Rede Brasil, Brasil 247 e Diário de Pernambuco).



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